Pesquisas são excelentes instrumentos para fornecer subsídios e permitir um novo olhar para determinados aspectos da realidade. Com essa premissa, refletimos aqui sobre um dos principais insights da pesquisa Relação das MPE com os contadores, realizada pelo Sebrae em 2016.

O Sebrae ouviu 6.054 micro e pequenos empresários (ME e EPP) em todas as regiões do Brasil, nos setores indústria, comércio e serviços. O primeiro dado interessante é que 69% das MPE se relacionaram com apenas um escritório de contabilidade / contador autônomo. É possível afirmar que existe uma alta taxa de fidelidade nessa relação. Será que existe proximidade real entre o empreendedor e o contador? É o que nos dirá a análise crítica deste artigo.

Um retrato da realidade

Quase todos os micro e pequenos empreendedores (97%) utilizam os serviços básicos de contabilidade, que consistem em balancete, folha de pagamento, obrigações trabalhistas e tributárias. São atividades contábeis relacionadas às obrigações legais, sem necessariamente envolvimento com a gestão estratégica das empresas. Em outra questão da pesquisa, o distanciamento dos contadores da camada estratégica fica evidenciado: a maioria dos empreendedores considera que os serviços de escritórios contábeis servem apenas para cumprir as obrigações da empresa.

A pesquisa do Sebrae aborda diversos aspectos e resolvemos aprofundar o pensamento no tipo de serviço contábil mais utilizado pelas MPE. Duas questões relevantes aparecem, cujo desdobramento analisaremos a seguir.

1) Serviços contábeis básicos bem executados tem seu valor reconhecido pelos empresários.

Cada empresa tem seu nível de maturidade de gestão e cada escritório de contabilidade tem seu posicionamento, prestando serviços contábeis essenciais ou uma ampla gama de serviços. Muitas vezes, o básico – correto, que cumpre prazos e legislação vigente atualizada – é satisfatório, durante um determinado período, para a empresa. Com o passar do tempo, existe espaço para a evolução da relação entre empreendedor e contador à medida em que a empresa se consolida nas práticas de planejamento e gestão. Além dos serviços essenciais, a MPE também pode passar a contar com o apoio de seu escritório de contabilidade em planejamento tributário; implementação de sistemas contábeis informatizados; solução de dívidas ou pagamentos atrasados; relatórios de desempenho e diagnósticos; recomendações para melhorar o negócio; apoio na gestão financeira; apoio para acessar linhas de crédito; apoio para participação em licitações e exportação; elaboração de plano de negócios.

2) Se há confiança e fidelidade entre empresários e contadores, por que não há proximidade com o negócio?

Existem muitas respostas possíveis a essa pergunta. Talvez o distanciamento seja causado pelo comportamento dos contadores, formados, desde a graduação, com mais ênfase em operação e controladoria e menos em gestão. Isso pode ter levado os empresários a não perceberem que podem ter em seus contadores parceiros estratégicos. Por outro lado, os empresários podem também subestimar a importância de se apropriarem das informações contábeis que recebem, fazer questionamentos e conectá-las com o todo da empresa.

Oportunidades de melhorar a relação ganha-ganha

O que podemos concluir, a partir desta reflexão, é que a relação entre micro e pequenos empresários e seus contadores pode evoluir muito, já que o vínculo existente é sólido o suficiente para ser transformado. Há oportunidade de estreitar a relação tanto na esfera dos serviços contábeis básicos como nos que envolvem planejamento e gestão. Como em todo relacionamento humano, o sucesso da parceria depende dos dois lados envolvidos. Que tal começar adotando práticas como interações mais frequentes, reuniões periódicas, encontros com propósito? Todos saem ganhando.

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